UMA IMAGEM DE MARIA (BONITA): ENTRE A LEI DA ESCRITURA (FEMININA) E A ESCRITURA FORA DA LEI (MASCULINA)
Eu penso que toda mulher tem a força de Maria Bonita. Todas mulheres lutam muito.
Ana de Oliveira (leitora de cordéis sobre Maria Bonita)
O presente ensaio, que integra uma pesquisa maior sobre a figura de Maria Bonita no imaginário, tem como principal objetivo produzir uma imagem diferencial, entre a lei da escritura (feminina) e a escritura fora da lei (masculina), da mulher Maria Déa, mais conhecida como Maria Bonita, a cangaceira companheira do famigerado “bandido” chamado Lampião.
Maria Bonita, segundo atestam registros a seu respeito, nasceu entre os anos de 1907 a 1909. Filha de sertanejos, morava na fazenda Malhada da Caiçara próxima a Santa Brígida, local hoje chamado de Jeremoabo, confins do nordeste baiano. Como tantas outras meninas da época, vivia sob o imperativo do regime patriarcal, que atravessava a ordem positivista e a lei coronelística. Como sertaneja e mulher, convivia com as agruras e intempéries de um sol inclemente nordestino e a subalternidade “natural” e diária de todas a mulheres de condição semelhante. Assim, como que por uma ordem do destino, quase toda mulher deveria desde cedo aprender os afazeres domésticos. Como nos diz em sua história de vida, a senhora Joana – nascida na mesma época de Maria e que teve a sua casa invadida por Lampião e seu bando –, “as mulheres da época não estudavam, viviam na roça trabalhando, fazendo esteira, outras não trabalhavam, viviam pedindo comida nas casas. Era uma pobreza terrível naquele tempo”.[1]
Como dona Joana, a senhora Emília, mais conhecida como Dona Teté, também contemporânea de Maria Bonita e que ainda vive firme e forte, não freqüentou escola. Dona Teté, que em meados de 1932 fugiu caatinga a dentro a esconder-se do bando de Lampião que por ali passava, conta a sua história que parece se confundir com a de tantas outras mulheres: “Mamãe queria botar nós pra estudar, ele dizia (seu avô): ‘não vai não, não vai não, pra amanhã tá escrevendo pros moleques... ficam na janela...’ ‘Me arrepio todinha, pode crer...’ lamenta a sertaneja excluída”.
Para a cangaceira Dadá, segundo o escritor e pesquisador das peripécias de Lampião, Amaury Correia de Araújo, o estudo até que existia mas ficava sempre como um sonho inatingível de toda mulher naquelas condições, para quem o poder patriarcal sempre cuidava de traçar um destino quase que incontornável: as mazelas da vida doméstica. Ouçamos a voz de Dadá:
Quando eu tinha sete anos, veio ensinar em uma escolinha bem perto de nossa casa uma nossa prima Rita Babu, alagoana de Piraconha. Meu pai e minha mãe trocaram opiniões sobre minha ida à escola. Fiquei contente com a novidade. Tinha desejo de aprender o bê-a-bá. No fim meu pai foi contrário a minha matrícula, dizendo que eu ajudava em casa e não podia deixar minha mãe sem auxílio. Fiquei triste. Mas triste ficava quando a prima Cota vinha aos domingos brincar e começava a soletrar: bê com a, bá, bê com ê, bê, be com i, bi e nós sentados por ali de boca aberta”[2].
Circunscrita a esse universo de penúria, vivia Maria Bonita. Sobre a sua escolaridade, pouco se registra. Talvez tenha aprendido precariamente o uso das letras. Talvez nem isso. Sobre a sua vida, sabe-se que tinha se casado com o sapateiro José de Neném e que um dia, alguns registram 1930, o abandona para viver com Lampião. Melhor: não somente o abandona, mas abandona também todo o ritual doméstico repressor para entrar no cangaço. Depois dela, outras mulheres fizeram o mesmo, cujos motivos eram vários. Para algumas como Doninha, o espaço clandestino do cangaço era o espaço do sonho: lá era possível ecoar os murmúrios de prazer dos romances de amor e aventura que muitas não podiam ler. Para outras que viviam como escravas dos seus senhores, chegando ao ponto de serem vendidas, o cangaço poderia até significar a sua liberdade, a promessa de uma identidade, ainda que num espaço demasiadamente marginal. Desse modo, forçavam a entrada no cangaço ou se faziam raptar, já que outras mulheres, para pertencerem ao bando, eram levadas, ainda que contrariando suas vontades, por alguns cangaceiros que as tomavam por suas mulheres. Somente em casos muito raros, havia aquela que seguia os passos do seu companheiro, como Enedina que ingressara no bando acompanhando seu marido que ali chegara por não suportar mais as perseguições das volantes (como era chamada a polícia na época).
Maria Bonita funda um outro tipo de rebeldia e radicalidade feminina, rejeitando um modelo de vida que lhe foi instituído. Abandonou casa, marido... contrapôs regras e tudo aquilo que forjava o que deveria ser uma mulher. Esse é um dos motivos que me leva a considerá-la como aquela que rasura uma lei da escritura feminina: uma lei patriarcal que criava e determinava o destino da mulher como algo natural e irrefutável. Assim como ela, muitas mulheres inventaram e ainda inventam linhas de fuga contra a escrita machista e excludente. Subvertem literalmente o texto masculino, ou seja, utilizam-se da pena e fazem da sua escrita uma lei alternativa. Talvez seja esta a própria escritura feminina já que feita por mulheres. O fato é que, se considerássemos somente essa como lei de escritura feminina, ainda assim, Maria Bonita não se enquadraria nessa categoria, visto que nada escreveu que a legitimasse nesse campo. Poderia até ter escrito algo que revelasse a sua vida ou a atividade de seu pensamento. Mas, se para ser uma escritora, conforme nos diz Virgínia Woolf, seria preciso ter “um teto todo seu”, no sentido de se ter condições, inclusive financeiras que possibilitassem lutar pelo direito de uma escrita libertária e singular, para Maria Bonita e para tantas outras Marias do sertão, dos sertões, essa condição era extremamente nula, simplesmente porque nem mesmo freqüentaram uma escola.
Embora no Diário da Bahia – como atesta a pesquisa da professora Lizir Arcanjo voltada para um resgate da produção de mulheres escritoras na Bahia no séc XIX – se publique em 1856, “Já vai longe o tempo em que em nossa terra muitos pais não mandavam suas filhas aprenderem a ler e a escrever para não escreverem cartinhas de namoro”,[3] é possível dizer, conforme depoimentos citados anteriormente, que na zona rural ou em locais interioranos, a situação ainda era outra. Assim, muitas se subordinavam mais uma vez à imposição do analfabetismo, outras, porém, conseguiam ou ter alguém para instruí-las em casa ou até mesmo freqüentar escolas. E então aprendiam a fazer seus nomes e de acordo com as aulas iam aprendendo também a desenhar o seu pensamento sobre as coisas em forma de letras no papel. Então tinham um grande avanço sobre aquelas que ficaram reclusas em casa sem ter contato com a leitura e a escrita. Sem dúvida, o fato de aprender a ler e a escrever representava um grande avanço, se bem que aquelas aulas dirigidas às mulheres repetiam de forma sistemática, muitas vezes, toda a lição patriarcal que a filha já aprendera desde que nascera. Nas aulas, então, sempre tinham espaço para a exposição dos bordados e costuras das alunas; as disciplinas eram consideradas “femininas” e para estudos mais abrangentes, o que não se aplica a zonas rurais, havia aula de piano, francês, e a lição bem tomada deveria servir de estímulo ou de obrigação para que se decorassem os catecismos religiosos.
Sendo assim, as escolas ou os ensinos profícuos eram elogiados por sua magistral função emancipatória para com as mulheres. Eis o que diz o mesmo Diário da Bahia sobre o ensino desenvolvido no Colégio Conceição: “Não é para o claustro que a senhora dona Maria Ana educa suas pensionistas, mas sim para o tríplice destino social da mulher - filha, esposa e mãe”[4]
Dessa forma, a escrita das mulheres talvez não conseguisse libertá-las ou ser produzida fora dos ditames masculinos que impregnavam e cerceavam qualquer ação emancipatória das mulheres. Essa era uma armadilha. O que nos leva a intuir que se Maria Bonita tivesse escrito algo, talvez repetisse na sua escrita (feminina) muitos dos estereótipos masculinos ou, ao contrário, tivesse também conseguido desafiar e rasurar a escritura masculina por ela vivida e ousadamente subvertê-la como outras mulheres já haviam feito. O fato é que sua escrita não se deu com pena e tinteiro mas com o seu corpo. Poderia ter sido uma romancista, mas não foi ou não teve como ser. Daí tomemos a observação de Virgínia Woolf, ao dizer: “Quando lemos sobre uma feiticeira atirada às águas, sobre uma mulher possuída pelo demônio, sobre uma bruxa que vendia ervas ou até sobre um homem muito notável que tinha mãe, então penso que estamos na trilha de uma romancista perdida, uma poetisa reprimida...”[5]
A partir dessa suspeita genial de Virgínia, poderíamos dizer que a romancista Maria Bonita perdera-se num tempo e num espaço por demais castradores, porém o que não pode perder-se ou camuflar-se sob a poeira da estrada são as marcas crivadas por essa nordestina, o que não se pode deixar de enxergar ou considerar é a sua escritura de vida, o roteiro anímico que seu corpo produziu.
Retomando uma cena da peça Lampião de Raquel de Queirós, em que Maria Bonita aparece soletrando passagens de um jornal que noticiava o cangaço, temos uma metáfora de grande rentabilidade crítica. Se de um lado, não consegue unir palavras, formar frases, decodificar discursos escritos, razão pela qual logo é interrompida por Lampião, por outro lado, sua leitura de mundo, sua escrita de vida, mobilizam outros textos, inventam outros mundos, para muitos invisíveis, como a escritura de tantas mulheres que diariamente soletram o mundo e inscrevem seus textos revolucionários abrindo fendas na metanarrativa patriarcal que as constituíram.
Poder-se-ia dizer, utilizando um conceito de Félix Guattari em textos como Cartografia do desejo, que Maria Bonita fez uma revolução molecular: liberta-se de uma vida patriarcal familiar, insere-se no cangaço e lá cotidianamente vai soletrando, questionando e modificando o estatuto de vidas dos homens marginais. Ou seja, não aportou naquele espaço clandestino, seguindo o balançar de suas águas, ao contrário, deu-lhes um novo movimento. Daí dizermos, com este ensaio, que Maria Bonita também não se enquadra na escritura fora da lei (masculina).
Por certo enfrentou todo tipo de preconceito. Até o fato de Lampião aceitá-la no bando, abrindo caminho para outras mulheres, segundo relatam os pesquisadores sobre a vida no cangaço, muito se pensou e se discutiu entre os cangaceiros. Maria Bonita seria a primeira mulher a marcar radicalmente aquele ambiente de foras-da-lei. Como dita o imaginário machista presente também naquele espaço, Maria Bonita carregaria para eles o sofrimento, o pecado da fragilidade de Eva ou se não, como Pandora, ao abrir a sua caixa ou o seu coração, abriria também o corpo fechado dos cangaceiros levando-os à destruição. É por isso que, como atesta Daniel Lins, era esse o comentário que se ouvia quando se cogitava sobre a união de um cangaceiro com uma mulher: “homem de batalha não pode andar com mulher. Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia; qualquer bala atravessa”.[6]
Sendo assim, ao atravessar esta primeira barreira, outras, aos poucos, vão se desmoronando. Como diria Daniel Lins, Maria Bonita instaurou uma nova ordem amorosa no bando, através da paixão da carne e do amor entre ela e Lampião, ofereceu a ele o estatuto de ser humano. Uma nova práxis se instaurou, a violência ganhou conteúdo, visto que ao dividirem juntos as agruras e intempéries de uma cotidiana perseguição, ao partilharem muitas vezes a gestação da vida sob balas de morte da repressão policial, o amor misturou-se a dor e a construção da vida a partir da morte virou sinônimo de luta. A mulher que sempre foi vista como uma igual no sentido de ser considerada uma cabeça pensante, uma inimiga, como o homem, que portanto merecia muitas vezes tratamento como tal, e essa era uma das lógicas que justificava muitas vezes o mal trato para com a mulher; depois da entrada de Maria Bonita e da convivência também de outra mulheres no bando, estas deixam de ser cabeça pensante inimiga e se tornam companheiras no amor e nos planos estratégicos de luta e sobrevivência. E assim a ideologia do cangaço foi mudando, os dois sexos recebiam então um julgamento igualitário.
No livro da cangaceira Sila, há a seguinte passagem: “a presença das mulheres no bando foi um fato positivo para inibir muitas violações sexuais, que de outra forma seria praticadas por cangaceiros”[7] Portanto, o estupro, considerado por uns como erotismo masculino e para outros uma conseqüência do mito da violência, foi combatido pela alegria e potência do jogo prazeroso do amor. Daí Daniel Lins dizer:
O papel sociosexual imposto às mulheres pela sociedade brasileira e nordestina, em particular – aprendizado da passividade, da oblatividade e da submissão; priorização da esfera afetiva e doméstica etc. – absolvia até certo ponto as práticas criminosas dos cangaceiros contra as mulheres antes da chegada de Maria Bonita”[8].
Sendo assim, Maria Bonita instaurou no espaço masculino do cangaço a força do diverso feminino. Contrariando as visões ao seu respeito, que lhe atribuíam passividade, consoante com os papéis preestabelecidos para as mulheres, a imagem de Maria Bonita que se vislumbra através dessa pesquisa é outra. Num contexto difícil e freqüentemente brutal, a exigência de uma igualdade de sexos e de papéis fomentou a revolução feminina que, iniciada por Maria Bonita, acrescentou força e personalidade ao imaginário feminino refutado pela ordem patriarcal.
Por que evocar uma imagem diferencial de Maria Bonita? Situá-la (ou não situá-la em lugar algum) entre a lei da escritura (feminina) e a escritura fora da lei (masculina)? De certo que trazer um passado à baila implica uma necessidade do presente. Ou seja, evocar essa imagem diz de uma possibilidade de outras mulheres repensarem a sua condição de subalternas e de excluídas. Mulheres sertanejas, analfabetas, mulheres de vidas secas, vidas sem vida... todas elas podem ser repensadas e discutidas sob o signo de Maria Bonita. Possibilidade de visibilizar tantas outras escrituras de vidas de mulheres apagadas e recalcadas pela mão masculina e única da história. Detectar e instigar revoluções cotidianas, como essas que muitas mulheres já fazem. A história de vida da senhora Diva que integra um projeto meu de pesquisa sobre a vida cotidiana de mulheres do sertão baiano - região do Sisal - seria um bom exemplo. Sem nunca poder ir à escola, como tantas outras Marias, e desepenhando os mais diversos papéis ao lado do marido (amansar boi brabo, quebrar pedra...) Diva é chamada por muitos de mulher-homem, já que para sobreviver no mundo minguado do sertão da Bahia, precisa quase sempre ignorar as funções estabelecidas binariamente para homens e mulheres, e diz: “o trabalho dele é o mesmo meu, faço o que ele faz, agora o que eu faço ele não faz”. Dito isto, penso ter multiplicado as questões em torno da subalternidade da mulher. Talvez esse seja o gesto que ainda nos move no sentido de um deslocamento de todas as escrituras aprisionantes, sobretudo aquelas que legitimadas para discutir a problemática da mulher, acabam por re-encenar a mão pesada do patriarca.
Referências Bibliográficas:
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[1] Fala da senhora Joana em entrevista concedida em 15/04/2000 que integra a pesquisa de campo realizada (assim como outras falas que aparecem ao longo do texto, a exemplo das de dona Emília e Diva).
[2] Amaury Correia de ARAÚJO. Gente de lampião: Dadá e Corisco, p. 15.
[3] Apud Lizir Arcanjo (Org.) Mulheres escritoras na Bahia, 1822-1918, p. 23.
[4] Id., p.22.
[5] Virgínia WOOLF. Um teto todo seu, pp. 64/65.
[6] Daniel LINS. Lampião: o homem que amava as mulheres, p. 25.
[7] Hilda Ribeiro de SOUZA (Silas). Angicos, eu sobrevivi: confissões de uma guerreira do cangaço, p. 60.
[8] Daniel LINS, op. cit, p. 134.